Vazamento de dados secretos dos EUA expõe privatização da segurança nacional
Ex-técnico da CIA que revelou programa
de interceptação de dados telefônicos e da internet trabalhava para
empresa que presta serviço ao governo americano
O ex-empregador de Edward Snowden, a Booz Allen Hamilton,
tornou-se uma das mais lucrativas corporações dos EUA servindo quase
que exclusivamente a um cliente: o governo americano. AP
Placa do lado de fora do gabinete da Agência de Segurança Nacional (NSA) (07/06)
Muito do crescimento da companhia na última
década veio de vender expertise, tecnologia e mão de obra para a Agência
Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês) e outros órgãos de
inteligência. A Booz Allen ganhou US$ 1,3 bilhão (cerca de R$ 2,7
bilhões), ou 23% do seu faturamento total, com trabalho de inteligência
no último ano fiscal.
O governo aumentou bastante os gastos em inteligência de alta tecnologia desde os ataques do 11 de Setembro
de 2001, e tanto os governos de George W. Bush (2001-2009) quanto de
Barack Obama escolheram se voltar ao setor privado para fazer grande
parte do novo trabalho.
As empresas privadas fazem essencialmente o mesmo
trabalho que milhares de pessoas formalmente empregadas pelo governo,
aprovadas para lidar com informações secretas. Snowden, que
revelou no domingo
ter sido a fonte de vazamento de documentos de segurança nacional, era do setor privado.
Como evidência da relação próxima entre governo e a companhia está o fato de o chefe de inteligência de Obama, James R. Clapper Jr.
, ser um ex-executivo da Bozz Allen. E John M. McConnell, que ocupou o
cargo durante o governo Bush, hoje trabalha na Booz Allen.
“O aparato de segurança nacional tem sido cada
vez mais privatizado e entregue a terceiros”, diz Danielle Brian,
diretora-executiva do Project on Government Oversight (Projeto sobre a
Supervisão Governamental, em tradução livre), uma ONG que estuda os
contratos do governo federal. “Isso é algo que o público não sabe, qual é
o processo pelo qual passaram os mais de 1 milhão de fornecedores que
têm permissão para lidar com assuntos sigilosos.”
Reprodução/ Guardian
Edward Snowden, que revelou o
programa de monitoramento da NSA: 'Não tenho nenhuma intenção de
esconder quem sou porque sei que não fiz nada de errado'
Segundo Danielle, já chegou ao ponto de o
processo de conceder autorizações de segurança ser frequentemente
manejado por prestadores de serviços, permitindo que companhias deem
esses tipos de autorizações governamentais a empregados do setor
privado.
Companhias como a Booz Allen, a Lockheed Martin e a
Computer Sciences Corporation também trabalham diretamente com a
compilação de informações e o fornecimento de análises e recomendações a
funcionários do governo. Empregados da Booz Allen trabalham dentro das
instalações da NSA, uma das agências de inteligência que lidam com as
informações mais secretas. A empresa também tem vários prédios de
escritório perto da sede da NSA em Fort Meade, Maryland.
A companhia emprega 25 mil pessoas e quase metade delas
tem permissão para “acessar informações que causariam ‘danos
excepcionalmente graves’ à segurança nacional se fossem tornadas
públicas”, dizem arquivos da empresa.
Em janeiro, a Booz Allen anunciou que começava a
trabalhar com um novo contrato no valor de US$ 5,6 bilhões (R$ 12
bilhões) para os próximos cinco anos para fornecer serviços de análise
de inteligência ao Departamento de Defesa. Pelo acordo, os empregados da
Booz Allen estão recebendo a tarefa de ajudar a criar políticas para o
Exército e para a segurança nacional.
O deputador Peter T. King, um republicano de New York e
ex-presidente do Comitê de Segurança Interna da Câmara, disse que não há
razão para acreditar que um funcionário privado tem mais chances de se
tornar fonte de repórteres do que funcionários diretos do governo, pois
ambos precisam obter autorização antes de ter acesso a informações
secretas.
“Os procedimentos de segurança são tão estritos que isso
(o vazamento feito por Snowden) é uma surpresa. Precisa haver uma
investigação completa sobre o que aconteceu. Houve algum sinal de
alerta? Havia assuntos no passado dele?”, indagou King.
Já Stewart A. Baker, que serviu como conselheiro geral da
NSA nos anos 1990 e mais recentemente teve um cargo no Departamento de
Segurança Nacional, acredita que a dependência de empregados de fora
pode sim deixar o governo mais vulnerável a vazamentos.
“Dentro do governo há estruturas projetadas para que as
pessoas entendam que podem expor dúvidas sobre a legalidade de
determinadas atividades em canais internos. Você pode ir ao inspetor
geral, aos Comitês de Inteligência; não é preciso tirar o véu do sigilo e
expor segredos nacionais para conseguir atenção. Isso é um pouco menos
óbvio para os prestadores de serviço”, disse Baker.
A Booz Allen reconheceu em uma declaração que Snowden foi
um empregado seu. A companhia, com sede na Virgínia, é primariamente da
área de tecnologia. Ela divulgou um faturamento de US$ 5,76 bilhões
(R$12,3 bilhões) no ano fiscal que terminou em março e está na 436.ª
colocação na lista da Fortune das 500 maiores de capital aberto. O
governo responde por 98% do faturamento, diz a empresa.
Seu rápido crescimento, alimentado pelos investimentos do
governo depois dos ataques do 11 de Setembro, fez com que ela fosse
comprada em 2008 pelo Carlyle Group; em 2010, ela teve seu capital
aberto na bolsa.
A companhia já teve ao menos um outro problema com a
manutenção de dados de segurança. Em 2001, arquivos mantidos pela Booz
Allen foram raqueados pelo grupo Anonymous, que alega ter roubado
dezenas de milhares de senhas militares.
NYT Por Binyamin Appelbaum e Eric Lipton Portal iG
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