Algumas centenas de pessoas ensaiaram sábado (22/3), no Rio e em São
Paulo, uma reedição da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, ato
que em março de 1964 animou os espíritos golpistas que acabaram
derrubando o governo de João Goulart. No domingo (23/3), os jornais
dedicaram às manifestações nada mais do que os relatos corriqueiros das
curiosidades que acontecem nas cidades grandes. No fim de semana e na
segunda-feira (24), seguem as reportagens especiais sobre o que foi
aquele período da nossa história recente.
Há algumas lições a serem observadas nesse noticiário. A primeira delas
é que, embora a imprensa hegemônica, aquela que ainda exerce uma
influência considerável sobre as instituições, continue obcecada em
derrubar o grupo político que governa o país desde 2003, está fora de
cogitação apoiar um golpe antidemocrático. A conspiração se dá no dia a
dia, nas escolhas editoriais que procuram demolir a autoconfiança dos
brasileiros e, principalmente, pressionar por mudanças na orientação das
políticas públicas.
Outra questão a ser observada é o cuidadoso trabalho de revisão
histórica que os jornais estão produzindo a respeito das cinco décadas
que se sucederam ao golpe de 1964. Mesmo se colocando em oposição
declarada às políticas de incremento da renda dos mais pobres
implementadas há dez anos, a imprensa finalmente reconhece que essas
políticas resultaram em grande avanço na redução das desigualdades
produzidas durante o período da ditadura militar.
Entre os títulos considerados de circulação nacional, o Globo é o
diário que enfrenta com mais determinação a tarefa de corrigir a visão
que a imprensa tentou impor aos brasileiros até aqui: o jornal carioca
afirma que o Brasil levou cinquenta anos para “se recuperar do estrago
que a política de arrocho salarial do regime militar e a inflação
fizeram na distribuição de renda brasileira”.
O jornal afirma, explicitamente, que o principal resultado da política
econômica da ditadura foi transferir pelo menos 70% do crescimento da
riqueza para os 10% mais ricos.
Contrariando a doutrina
A recuperação da economia nacional só foi possível após o Plano Real,
em 1994; ou seja, durante a maior parte do período que os economistas
chamam de “os trinta anos gloriosos” do capitalismo, o Brasil produziu
riqueza para os ricos e manteve a maioria da população em uma situação
de extrema vulnerabilidade.
Embora os artigos dos jornais não abordem o assunto diretamente, os
dados publicados indicam claramente que a recuperação da renda dos mais
pobres se concentra no período iniciado pelo primeiro mandado do
ex-presidente Lula da Silva. A retrospectiva também permite constatar
como a intervenção militar na política teve como objetivo preservar os
privilégios da oligarquia que sempre se apropriou da riqueza nacional.
Em fevereiro de 1964, o então presidente João Goulart havia aumentado o
salário mínimo para R$ 1 mil, em valores atuais, tentando recuperar o
poder de compra que os trabalhadores tinham em 1950. O golpe se acelerou
após essa decisão, o que revela claramente o papel das Forças Armadas,
na época, como guarda pretoriana submissa à oligarquia.
Alguns analistas citados pela imprensa consideram que a recuperação da
renda dos mais pobres começou em 1995, com o aumento real do salário
mínimo, mas só se consolidou quando o ex-presidente Lula da Silva criou
os programas econômicos de proteção social. Era necessário romper a
doutrina conservadora segundo a qual o Estado deve deixar que o mercado
se regule naturalmente, de modo que o salário reflita a lei da oferta e
da procura. Foi preciso usar a alavanca dos programas sociais, para que a
desigualdade começasse a diminuir.
A terceira, mas não menos importante, lição a ser tomada das crônicas
do fim de semana é que a imprensa sinalizou claramente que não compactua
mais com soluções brutais como o golpe militar para superar períodos
nos quais a política nacional contraria seus dogmas.
Luciano Martins Costa
Observatório da Imprensa

Nenhum comentário:
Postar um comentário