Documento
de 7 mil páginas, a que o iG teve acesso, traz relatos detalhados de práticas
de tortura contra povos indígenas no Brasil
O extermínio de tribos indígenas inteiras, métodos cruéis de tortura praticados contra índios, principalmente por interessados em suas terras e com o aval do Estado. Essas são práticas detalhadas no documento de sete mil páginas, a que o iG teve acesso, conhecido como Relatório Figueiredo. O material, que se julgava ter sido destruído em um incêndio no Ministério da Agricultura, em junho de 1967, foi encontrado recentemente, intacto, no Museu do Índio, no Rio de Janeiro.
As
atrocidades relatadas contra a população indígena contaram com o apoio do
extinto Serviço de Proteção ao Índio (SPI), órgão criado em 1910, quando várias
frentes de expansão para o interior do País promoviam um verdadeiro massacre da
população nativa que resistia ao chamado “avanço da civilização”. O SPI
funcionou até 1967, quando foi substituído pela Fundação Nacional do Índio
(Funai).
O
documento leva o nome de seu autor, o procurador Jader de Figueiredo Correia,
que morreu em um acidente de ônibus em 1976, aos 53 anos. Os dados
revelam que o órgão que seria responsável por proteger os índios das
violações deu aval para a violência cometida pelas chamadas “frentes
civilizatórias”. As primeiras informações sobre a existência do relatório
foram noticiadas, em abril, pelo jornal O Estado de Minas.
Relatório
Figueiredo: Descoberto recentemente, relatório que se julgava perdido havia 45
anos, aponta tortura e dizimação de tribos com aval do Estado.
A
investigação foi feita a pedido do então ministro do Interior, Albuquerque
Lima. O procurador Jader de Figueiredo percorreu mais de 16 mil quilômetros,
entrevistou dezenas de agentes do SPI e visitou mais de 130 postos indígenas.
As
páginas do relatório detalham o uso de metralhadoras e dinamites atiradas de
aviões nas chamadas “caçadas humanas”. O relatório aponta ainda que, para
dizimar tribos indígenas mais isoladas, empresas e agentes públicos
distribuíram aos índios açúcar misturado com estricnina, um veneno poderoso
usado para matar ratos.
O Estado
também foi conivente, de acordo com o documento, com a inoculação proposital do
vírus da varíola para dizimar populações inteiras de índios.
Tortura
Pela
descrição do procurador Figueiredo, os postos do SPI eram semelhantes a
cadeias, equipados com celas ou quartos de tortura. Os índios que discordavam
dos chefes dos postos no SPI, de acordo com o documento, eram amarrados como
negros escravos nos antigos pelourinhos e chicoteados com “rabo de tatu”, uma
espécie de chicote com argola no cabo e duas talas nas pontas. Índios também
eram presos em fossas sanitárias.
Uma das
formas de tortura detalhadas no relatório era a “técnica do tronco”, descrita
da seguinte forma no documento: “Consistia na trituração dos tornozelos das
vítimas, colocadas entre duas estacas enterradas juntas em um ângulo agudo. As
extremidades, ligadas por roldanas, eram aproximadas lenta e continuamente”. De
acordo com o relatório, a prática era comum e muitos índios foram mutilados por
essa técnica e alguns morreram. Ao se aproximarem, as estacas acabavam
quebrando os tornozelos dos índios.
No caso
de crianças, o relatório também aponta torturas. Um menino de 11 anos contou ao
procurador que ficou dependurado pelos polegares, uma técnica que acaba
esmagando a ponta dos dedos. Essa mesma técnica, de acordo com o documento foi
usada no posto Cacique Doble, localizado no Rio Grande do Sul, para torturar o
índio Narcizinho, de sete anos, que além de ser pendurado, foi espancado até a morte.
Assim
como acontecia com escravos negros, índios também foram comercializados, de
acordo com o relatório. O documento relata que uma índia bororó de 11 anos foi
dada como pagamento a um operário pela construção de um fogão de barro. O pai
da menina, ao reclamar da venda, acabou sofrendo torturas.
Caixa preta
O
conteúdo do relatório foi descoberto pelo vice-presidente do grupo Tortura
Nunca Mais de São Paulo e coordenador do Projeto Armazém Memória, Marcelo
Zelic, “Esse material foi parar no Museu do Índio em 2008. De 2008 a 2010,
ficou lá, junto com outras 50 caixas que foram recebidas. Curiosamente, as
caixas tinham tampas pretas. Era muito curioso isso. E dentro dessas caixas,
documentos sensíveis, muitos documentos sensíveis correspondentes a violações
de direitos humanos”, comentou.
O
documento já está nas mãos da psicanalista Maria Rita Kehl, integrante da
Comissão Nacional da Verdade e coordenadora do grupo de trabalho, que apura
graves violações de direitos humanos no campo ou contra indígenas no colegiado.
Zelic
também ponderou que a análise do Relatório Figueiredo pela comissão é
extremamente necessária, visto que os movimentos para abafar as atrocidades
contidas no documento ocorreram no auge da ditadura militar, durante o governo
de Emílio Garrastazu Médici (1969-1974). “Ao pesquisar esse período da ditadura
a partir da ótica das violações dos direitos indígenas, podemos topar de cara
com a importância do Relatório Figueiredo”, observou.
“Todo
movimento de abafar, de silenciar a repercussão desse relatório foi feito
durante o governo Médici, inclusive chamando e convocando o CDDPH (Conselho de
Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), órgão que funciona até hoje no Estado, a
se posicionar dizendo que jamais houve genocídio indígena no Brasil, numa
reunião em 1970, convocada, é claro, pelo presidente Médici”, ponderou.
Publicação
Um grupo
de senadores, reunidos na Subcomissão da Verdade da Comissão de Direitos
Humanos do Senado, quer a publicação do relatório, pelo menos em uma versão compacta,
para que a população tenha acesso ao cruel tratamento dispensado pelo Estado
brasileiro às populações indígenas. “Revelar a verdade sobre essa tragédia é o
primeiro passo para fazer justiça aos índios”, disse a senadora Ana Rita
(PT-ES), que é presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado.
“O
objetivo da publicação é contribuir para o resgate da verdade histórica. Essas
nações indígenas foram duplamente vitimadas. Primeiro, pela ação do Estado e
das grandes empresas, que invadiram seus territórios dizimando populações
inteiras. Depois, pela violência do esquecimento”, explicou a senadora.
O senador
Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) chegou a realizar uma audiência pública sobre o
assunto e acha que o Estado tem que assumir a responsabilidade pelo que está
relatado em um documento oficial. “É urgente o esclarecimento do que ocorreu, a
responsabilização do Estado brasileiro e a indenização devida aos povos
indígenas pelos crimes que foram praticados”, disse o senador. “Acho que é
importante uma síntese desse relatório para que ele possa ser publicado e,
assim, tornado de conhecimento público”, destacou.
Luciana
Lima - iG Brasília

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