Violência sectária visceral afasta chance de perdão nacional na Síria
Massacre recente de ao menos 322
vítimas na costa síria revela novos graus de depravação de conflito, em
que rebeldes e governo se filmam cometendo atrocidades para o mundo ver
Depois de arrastar 46 corpos das ruas perto de sua cidade
natal na costa da Síria, Omar perdeu a conta. Durante quatro dias,
relatou, ele não conseguiu comer, lembrando-se do corpo queimado de um
bebê de poucos meses de idade, de um feto arrancado da barriga de uma
mulher, de um amigo morto, seu cão ainda fazendo guarda a seu lado. AP
Reprodução de vídeo mostra corpos em Bayda, Síria (03/05)
Omar sobreviveu ao que moradores, ativistas
antigoverno e monitores de direitos humanos consideram um dos episódios
recentes mais obscuros da guerra da Síria, um massacre na província de
Tartus (dominada pelo governo), que inflamou divisões sectárias, revelou
novos graus de depravação e tornou a possibilidade de recompor o país
cada vez mais distante.
O assassinato em massa foi um de uma série de recentes
ataques sectários que sírios em ambos os lados se aproveitam para
demonizar uns aos outros. Forças do governo e rebeldes se filmaram
cometendo atrocidades para o mundo ver.
Gravações rotineiramente mostram combatentes pró-governo
espancando, matando e mutilando rebeldes sunitas detidos, forçando-os a
se referir ao presidente Bashar al-Assad como Deus. Um rebelde
recentemente se filmou extirpando um órgão de um membro das forças pró-governo
morto, mordendo-o e prometeu o mesmo destino aos alauítas, membros da seita muçulmana xiita de Assad.
Esse tipo de violência alimentou o pessimismo sobre os
esforços internacionais para acabar com o conflito. Enquanto os EUA e a
Rússia trabalham para organizar negociações de paz
no próximo mês entre Assad e seus adversários, a carnificina cada vez
mais extrema faz a reconciliação parecer cada vez mais remota.
Nadim Houry, diretor do Human Rights Watch em Beirute,
disse sentir "uma total desconexão entre a diplomacia e os
acontecimentos no campo de batalha". "O conflito está cada vez mais
visceral", afirmou. Sem medidas concretas de construção de confiança,
disse, e com mais pessoas "vendo a guerra como uma luta existencial, é
difícil imaginar como seriam as negociações".
As execuções recentes, reconstituídas por meio de
conversas com os residentes e monitores de direitos humanos, aconteceram
ao longo de três dias em dois enclaves sunitas em Tartus, província
amplamente alauíta e cristã, primeiramente na aldeia de Bayda
e, em seguida, no distrito de Ras al-Nabeh da cidade vizinha de Banias.
Soldados do governo e milícias de apoio foram de casa em
casa matando famílias inteiras e esmagando cabeças dos homens com blocos
de concreto.
Ativistas antigoverno divulgaram listas de 322 vítimas
que disseram ter identificado. Vídeos mostraram ao menos mais de dez
crianças mortas. Há relatos de centenas de desaparecidos.
"Como poderemos alcançar um ponto de perdão nacional?",
indagou Ahmad Abu al-Khair, um blogueiro bem conhecido de Bayda. Segundo
ele, os ataques começaram nessa vila, em que 800 dos 6 mil residentes
estão desaparecidos.
Várias imagens de vídeo feitas pelos moradores em Bayda e
em Ras al-Nabeh - de crianças pequenas mortas, algumas se abraçando ou
envoltas nos braços de seus pais - eram tão duras que mesmo partidários
do governo rejeitaram a versão oficial da televisão síria de que o
Exército "reprimiu vários terroristas".
Líderes da oposição caracterizaram os massacres de
"limpeza" sectária com o objetivo de expulsar os sunitas de um
território que pode fazer parte de um eventual Estado alauíta se a Síria
acabar se desintegrando. Houry disse que a matança inevitavelmente
desencadeou esses temores, embora não haja evidência de que essa
política seja disseminada.
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