Programa para PM que passa por situação de risco vira "castigo" para agentes
Programa tira das ruas PMs que passam
por trauma durante ações de risco; receio de ir para o curso seria uma
das justificativas para policias terem evitado confrontos na Virada
Cultural
Policiais militares de São Paulo que passam por
tratamento psicológico vêm reclamando nos bastidores das avaliações
recebidas no Programa de Acompanhamento e Apoio ao Policial Militar
(PAAPM). Criado em 2002, auxilia na recuperação de agentes que passam
por algum trauma durante ações de risco, como acidentes de trânsito ou
confronto com criminosos.
Em conversa com o iG
em condição de anonimato, policiais relatam o agravamento do quadro
clínico de alguns, resultado do programa estar superlotado, da falta de
profissionais e da sensação de que eles estão de “castigo” por terem se
envolvido em ações impopulares ao comando da Polícia Militar (PM). Renato S. Cerqueira/Futura Press
Policiais abordam pedestres durante a Virada Cultural, em São Paulo
O PAAPM substituiu o Programa de Acompanhamento
a Policiais Militares Envolvidos em Ocorrências de Alto Risco (Proar) -
criado em 1996 -, que previa o afastamento automático do PM envolvido
em uma ação que resultasse em morte. Com a mudança, o policial em
qualquer ação de risco ou estresse passou a ser encaminhado para
avaliação psicológica no Centro de Assistência Social (CAS) do PAAPM,
que na capital fica no Canindé, na zona norte da capital.
Mas, de acordo com os relatos, uma ordem partida do
Comando da Polícia Militar em fevereiro deste ano resultou em problemas
em cascata. A decisão informal, negada pela PM, teria instruído os
psicólogos a reterem no complexo até mesmo os profissionais avaliados
como aptos para voltar ao trabalho.
Um deles ouviu a justificativa do próprio psicólogo, que
teria se desculpado por mantê-lo no programa por seis meses. O resultado
é a superlotação dos três módulos do curso. Sem profissionais
suficientes para atender tanta gente, os policiais passam o dia “jogando
bola”.
Essa é a atividade recomendada no primeiro módulo, a
Educação Física, que dura 30 dias. Depois dessa fase, são exigidos mais
30 dias no setor de psicologia e mais um mês no Centro de Comunicação
Social, onde o caso do policial é estudado. Ao todo, diz um relato,
cerca de 225 pessoas passam por esse processo atualmente, o que causaria
uma fila de espera para iniciar o programa.
Conforme apurou o iG
, desses policiais, cerca de 15% chegam do interior do Estado. Eles
reclamam que têm de pagar do próprio bolso a estadia em hotéis de São
Paulo durante esses três meses, quando precisam comparecer ao curso das
9h às 18h, de segunda a sexta-feira. Depois desses 90 dias, o oficial
volta para o batalhão onde normalmente desempenha atividades
administrativas por mais três meses, para só depois passar por mais uma
nova bateria de exames e poder volta às ruas.
O resultado, dizem eles, é a sensação de castigo para
quem passa pelo programa e de medo por quem trabalha nas ruas. O receio
de terminar no PAAPM seria uma das justificativas para que policiais
militares evitassem agir com mais rigor durante os 12 arrastões que
amedrontaram fequentadores da Virada Cultural no último final de semana.
“Em São Paulo havia um nível de resistência maior por
parte dos policiais por conta do efeito indireto no orçamento familiar
do sujeito, que fica impedido de fazer bicos e permanece por longo
período em tratamento”, afirma o tenente-coronel reformado Edson Güido
de Moraes, ex-coordenador do PAAPM da cidade de Assis, responsável pelo
atendimento dos policias das regiões norte e oeste do Estado. “Em uma
época cheguei a propor que eles recebessem uma ajuda de custo para
frequentar o curso.”
Procurada pela reportagem, a Polícia Militar de São Paulo
não comentou as afirmações feitas pelos policiais consultados pelo
iG
. Programa em Universidade
Moraes coordenou o tratamento em Assis, no interior de
São Paulo, entre 2000 e 2004, quando recebeu carta branca para adaptar
as regras do programa às necessidades locais. “O sucesso se deveu
fundamentalmente a uma parceria com um campus de psicologia da Unesp
(Universidade Estadual Paulista) em Assis.”
A orientação ficou por conta do professor da universidade
Claudio Edward dos Reis: “A princípio a recepção era de desconfiança
porque o policial tem uma formação rígida, mas muitos perceberam que o
programa ajudava com atividades descontraídas e nas vivencias
corporais”, diz.
O atendimento era feito para um grupo máximo de dez
pessoas, que permaneciam em tratamento por não mais do que duas semanas.
“Ao final do período, era feita uma avaliação e, estando apto, o
paciente retornava para a vida normal”, lembra Moraes. Em alguns casos,
em que o profissional mantinha algum trauma, ele voltava para a unidade
de origem. “O objetivo não era tirá-lo da sua rotina porque isso
compromete a autoestima.”
Segundo o tenente, o receio do agente é que seus colegas
de farda possam julgá-lo fracassado por precisar de apoio psicológico
depois de uma ação. “Mais do que a sensação de castigo e a distância da
família, eles receiam a opinião interna.”
Para Moraes, “o curso tem uma finalidade muito boa para a
sociedade”: “Já que o Estado dá o poder letal, que é a arma, espera-se
que esse profissional tenha equilíbrio mental para usá-la”, diz ele, com
uma ressalva: “A coordenação do curso precisa se envolver, cuidar dos
detalhes para reduzir a impressão de que se trata de um castigo”.
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