Ligação de empresários com a ditadura abre nova frente de indenização a vítimas
Comissão da Verdade levanta documentos
sobre a rede de colaboração do empresariado paulista para mostrar a
dimensão do apoio e a perseguição política contra trabalhadores
Na pauta de investigações da Comissão Nacional da Verdade
, o envolvimento do empresariado paulista com a ditadura militar pode
abrir uma nova frente de indenizações financeiras para favorecer, a
título de reparação, trabalhadores que perderam o emprego em decorrência
da colaboração dos patrões com os órgãos de repressão.
“Quem foi demitido ou sofreu prejuízos por perseguição
política comprovada vai poder entrar na Justiça para pedir a reparação”,
diz a advogada Rosa Cardoso, integrante da CNV e encarregada de apurar e
analisar o papel de empresas e empresários na sustentação financeira da
repressão. Reprodução
O empresário dinamarquês naturalizado brasileiro, Henning Boilesen, que era dirigente da Ultragaz
Rosa Cardoso diz que, antes de chamar os empresários, a
CNV está passando um pente fino nos arquivos deixados pelo regime
militar e em textos que estão esparsos em reportagens ou na literatura
sobre o período.
O objetivo é levantar documentos que não deixem dúvidas
sobre a rede de colaboração, mostrem a dimensão do apoio e explicitem a
perseguição política contra trabalhadores.
Só da região do ABC paulista, há denúncias envolvendo
pelo menos seis metalúrgicas que enviavam ao Dops listas com os nomes de
trabalhadores apontados como suspeitos de subversão ou submetiam
candidatos a emprego ao crivo da polícia política.
Em países como a Argentina e África do Sul, cujos regimes
também ditatoriais foram submetidos à comissões da verdade, o
envolvimento de empresários com ações que resultaram em violações abriu
brecha para ações de reparação na Justiça. Nos casos em que ficou
comprovada a cumplicidade da empresa, os donos foram responsabilizados
como pessoas físicas e serão obrigados a indenizar.
A CNV trabalha com a compreensão de que o golpe que
derrubou o ex-presidente João Goulart foi civil-militar e teve amplo
apoio do empresariado nacional e multinacional. Mas seu foco são os
grupos que financiaram as ações de repressão que terminaram em violação
de direitos humanos.
O fio da meada é a Operação Bandeirantes (Oban), que
ligou ao aparato repressivo o governo paulista, os políticos que lhe
deram sustentação, os órgãos policiais e o empresariado que à época
gravitava em torno da poderosa Federação das Indústrias do Estado de São
Paulo (Fiesp).
São cada vez mais claras para a CNV as suspeitas de que
empresários ligados à entidade davam dinheiro e forneciam meios para
ajudar o aparato repressor. Por envolver grandes conglomerados
empresariais e financeiros que ainda estão em atividades, os nomes estão
sendo listados com discrição.
O mais notório, no entanto, é o caso da Ultragaz cujo
dirigente, o empresário dinamarquês naturalizado brasileiro, Henning
Boilesen, acabou executado pela esquerda armada depois que se descobriu
que doava dinheiro, fornecia caminhões da empresa para a polícia usar
como camuflagem e ainda assistia a sessões de tortura nos
estabelecimentos de repressão.
“Nos casos em que houve pedido, o dinheiro foi dado”, diz o jornalista Elio Gaspari autor de As Ilusões Armadas
, um conjunto de quatro livros que cobre todo o período militar e estão
entre os trabalhos usados como roteiro nas investigações da CNV.
Gaspari afirma que o eixo mais importante de sustentação
era o apoio político do empresariado. A colaboração, que teria durado de
1968 a 1974, foi mais significativa no fornecimento de veículos,
passagens aéreas, alimentação, hospedagem ou qualquer outro meio que o
aparato repressivo necessitasse.
No caso da Oban, ele acha que volume de dinheiro doado
não passou de US$ 100 mil por ano, já que os servidores e órgãos como o
Destacamento de Operações e Informações (DOI) e delegacias eram bancadas
pelos orçamentos das Forças Armadas e do governo paulista.
A CNV abrirá a série de depoimentos sobre o papel da
Fiesp e empresariado paulista com as convocações do ex-ministro Delfim
Netto e do ex-governador paulista Paulo Egydio Martins, citados num dos
livros de Gaspari A Ditadura Escancarada
como peças chaves para esclarecer a extensão do apoio.
Nele o jornalista relata um encontro promovido pelo
banqueiro Gastão Vidigal em meados de 1969, onde o ex-ministro Delfim
Netto teria pedido ajuda aos empresários. Também transcreve declaração
de Paulo Egydio em que este afirma que “todos os grandes grupos
comerciais e industriais do Estado contribuíram para o início da Oban”.
A reconstituição do papel do empresariado passa pelo
esclarecimento de um episódio que veio à tona recentemente: a presença
constante do empresário Geraldo Resende de Mattos nas dependências do
Dops paulista, onde este se identificava sempre como dirigente da Fiesp e
ficava horas reunido com policiais e militares encarregados da
repressão.
Mattos era, na verdade, representante do SESI (Serviço
Social da Indústria) e homem de confiança do industrial Nadir Dias de
Figueiredo, responsável pela indicação de todos os presidentes que
passaram pelo comando da Fiesp entre 1960 e 1980.
Ao contrário de Boilesen, de quem era amigo e avalista na
ascensão de uma das diretorias da entidade, o Centro das Indústrias
(Ciesp) Figueiredo era personagem discreto, o que lhe garantia o
trânsito entre os pesos pesados do PIB paulista. Da conspiração que
derrubou Jango até o governo do último general presidente, o industrial
apoiou incondicionalmente o regime contra a “ameaça comunista”.
Mais que o elo do triângulo em que se encontravam Geraldo
Resende de Mattos, Henning Boilesen e Nadir Figueiredo, o livro de
presenças do Dops paulista é a trilha de investigação que pode levar a
CNV a esclarecer a real dimensão do apoio da Fiesp ao aparato
repressivo.
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