Das mudanças no clima? Da Prefeitura? De quem joga lixo nas ruas? Ou de quem aterra e ocupa margens de rios e córregos?Se você citou uma das alternativas acima, errou. Se apontou para todas, está correto. Os transtornos que a população vem sofrendo nesta época do ano por causa das enchentes são resultado de um conjunto de fatores, que distribui a culpa por todos os lados.
Uma parcela da responsabilidade é, de fato, da infra-estrutura de drenagem da cidade, que está longe do ideal para aguentar a quantidade de chuvas de verão. Além da impermeabilização do solo, que continua crescendo, não temos um sistema preparado para aguentar tanta água. Nos anos 80, o Plano Diretor da cidade previa a construção de pelo menos 90 piscinões. Hoje temos 19, e ainda assim mal articulados. "Os piscinões não conversam com o sistema hídrico de São Paulo", afirma o urbanista Kazuo Nakano, do Instituto Polis. "Os piscinões atuais foram pensados para grandes bacias, mas não existe nenhum ligado às sub-bacias. Não temos parques de várzea e nosso plano de drenagem se limita às redes de galerias com bueiros, que desembocam e rios e córregos", explica.
A solução, no longo prazo, é única: permeabilizar o solo cada vez mais. O planejamento da cidade, diz, terá que considerar a liberação de espaço para que o solo possa absorver a água.
As enchentes deste verão têm ainda um diferencial em relação às anteriores: uma quantidade de água muito maior. Em 2009, a cidade recebeu 1.629 mm de chuva. No ano anterior, foram 1.152, segundo números do Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE), da Prefeitura de São Paulo. Tudo por causa do fenômeno El Niño - o aquecimento das águas do Oceano Pacífico - que no ano passado foi bem mais forte do que os anteriores. Tanto é que o meteorologista Michael Rossini Pantera, do CGE, acredita ser possível que o período de chuvas na cidade deva se estender até o mês de abril, embora a intensidade das chuvas seja menor.
Sim, São Pedro exagerou e a cidade não fez a lição de casa. Mas a população, a grande prejudicada pelas enchentes, também tem sua cota de contribuição. Mesmo com a remoção de quase 1 milhão de toneladas de detritos dos piscinões, limpeza mecânica de 8 quilômetros de córregos e 3,8 ações de limpeza de bocas-de-lobo em 2009, as chuvas mostraram uma quantidade considerável de lixo nesses locais e também nas ruas. Isso sem falar nos 400 mil m³ de lixo que são retira-dos do rio Tietê todos os anos.
E não se trata apenas de lixo doméstico, mas de objetos de grande porte, como sofás, colchões, armários e pneus. Há também o lixo comum jogado nas ruas, como latas, garrafas PET, papel, bitucas de cigarro, que vão parar diretamente nos cursos d'água da cidade. Fica tudo entupido.
Mas a maior culpa é certamente da ocupação irregular, ilegal e criminosa das margens dos rios e represas - fenômeno que ocorre há décadas em São Paulo. Impunemente. Quando chove, as águas simplesmente não têm mais as várzeas livres para se espalhar e se infiltrar na terra. A Prefeitura tem atuado contra isso, mas enfrenta resistências. E tem criado parques lineares, ao longo das margens. Mas ainda é pouco para o tamanho do problema."A curto e médio prazos, ainda iremos conviver com essas tragédias anunciadas", diz Kazuo Nakano.
Caderno SP - www.cadernosp.com.br - 20/01/2010
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